O futuro da vela decidido na reunião da World Sailing (por Blu)

Nosso parceiro Ricardo Blu Lobato do site regras.com.br comenta tudo o que foi decidido na reunião anual da World Sailing. Confira abaixo o post atualizado:

Nesta semana que passou, a World Sailing se reuniu para decidir o futuro da vela. Como ex-membro do Comitê de Regras e do Sub-comitê de umpires, tive a oportunidade de participar desta reunião duas vezes. São nove dias de reuniões em diversos comitês para tudo ser decidido neste final de semana. O esquema acima define o processo de tomada de decisão da World Sailing.

Uma crítica constante feita aqui era que não havia uma conexão entre os representantes do Brasil na reunião e os velejadores. Diversas iniciativas foram feitas, principalmente com a criação do Comitê Técnico de Vela (CTV) e a Comissão de Atletas da CBVELA, todos eleitos diretamente. O presidente da CBVELA, Marco Aurélio, participa pessoalmente da reunião sem o tradicional envio de substituto. Esta reunião marca o início da atuação do Torben Grael no conselho da World Sailing como Vice-Presidente. A última vez que tivemos um brasileiro lá foi durante o período entre 1986 e 1994 com Peter Siemsen. Ele foi responsável pela criação de todo o regulamento que permitiu a propaganda nos barcos, iniciando o profissionalismo na vela.

No meio de dezenas de propostas, reuniões e muita politicagem é difícil extrair alguma coisa que possa impactar positivamente o nosso esporte. Separei então alguns tópicos relevantes para a vela brasileira.

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Mulheres e Sustentabilidade

Uma novidade desta reunião foi a transmissão ao vivo. Acompanhei o fórum dobre a participação das mulheres na vela e o fórum de sustentabilidade, assim como a reunião do conselho foram transmitidas ao vivo.

Fórum das Mulheres: A percepção geral é que as mulheres têm as mesmas oportunidades que os homens do Optimist até as classes Olímpicas. A dificuldade ocorre na vela de oceano e America’s Cup. Mas não saiu nada da discussão de ação prática que poderia ser feita pela World Sailing. O exemplo da Volvo Ocean Race seria o caminho. A regra da regata foi alterada para incentivar a escalação de pelo menos duas velejadoras. A ABVO poderia fazer algo semelhante por aqui. Que tal bonificar o barco em 1s/milha para cada tripulante feminina? Nos barcos de classe, poderia ser permitido uma tripulante feminina que não somasse no peso final da tripulação.

Fórum de Sustentabilidade: Outro buzzword deste evento é “sustentabilidade”. O fórum trouxe diversas propostas de ideias, mas a verdade é que muita pouca ação prática foi realizada. Foi criado um belo documento sobre o assunto (http://sailing.org/tools/documents/SustainabilityAgenda2030-[23247].pdf) , mas as metas são muito genéricas. Quando são específicas, são muito modestas e de longo prazo. Por exemplo, querem reduzir em 50% o número de barcos de técnicos nas regatas da World Sailing até 2024. Meu último ato na CBVELA foi escrever uma submissão para restringir os barcos de técnicos totalmente já. A proposta foi completamente rechaçada no Comitê de Eventos ano passado. Inacreditável a situação atual do nosso esporte. Ter barcos como o Volvo 65 que precisam navegar com o motor ligado para poder pressurizar o sistema de quilha pivotante. Nos eventos de classes Olímpicas, é quase um bote para cada barco a vela. Para não dizer que não há propostas de mudanças sobre o tema, a Federação Inglesa propôs que a regra 55 (lixo na água) não pudesse ser alterada, como ocorre na Volvo Ocean Race. Confira o artigo Santos-Rio x Volvo Ocean Race.

Além destes dois fóruns, foram realizadas algumas apresentações no primeiro dia da reunião do conselho. Uma foi um programa que leva a vela nas escolas  http://ac35endeavouropen.com. Vale lembrar que o Projeto Grael já faz isto a 20 anos! Uma apresentação curiosa foi uma “evolução” do Optimist. Colocaram uma nova proa e mastro de carbono no barco. Interessante, mas inapropriado para uma reunião com vários assuntos para resolver. Afinal, a classe Optimist é um sucesso a décadas. E ideia de novos barcos para crianças não faltam. Minha predileta é a do Romel Castro de Brasilia, o Optimaster

Olimpíadas 2024:

Eventos: Sem dúvida é o tópico mais polêmico. A decisão das classes será feita somente na reunião de maio de 2018. Mas alguma coisa já ficou definido. Haverá divisão homogenia entre eventos para mulheres e homens. Isto obrigou a aumentar o número de eventos mistos a um mínimo de dois eventos ou no máximo quatro abrindo novas oportunidades.

Formato: O Comitê de Eventos apreciou algumas submissões sobre alterações no formato. Duas propunham que o vencedor da última regata levaria a medalha de ouro. A Submissão japonesa tinha uma largada com uma linha torta e com posicionamento favorecendo o primeiro do campeonato até o ultimo dia. Já a proposta da classe RSX criaria uma eliminatória até a última regata com 3 pranchas somente. Bem ao estilo da Star Sailing League ou da Snipe Challenge realizada este ano no Rio de Janeiro

Mas nada disto agradou o Comitê de Eventos. Entretanto, numa votação apertada no comitê de eventos (8×6), foi recomendada a troca da medal race por três regatas de 10 minutos no último dia para a classe 49er e FX. As três regatas teriam peso 1 cada e seriam corridas num “estádio”. Na votação informal entre os atletas no facebook a proposta foi rechaçada por grande margem grande margem. Depois de muito debate, o conselho manteve o formato original do Rio 2016 para todas as classes com uma regata da medalha com pontos dobrados. A votação foi apertada (21×19). A única novidade para 2024 será largada de través para o RSX.

Classificação 2020: A classificação para as Olimpíadas de 2020 será decidida com 40% das vagas no mundial da World Saing 2018 na Dinamarca. O mundial de 2019, um evento continental (na América do Sul será no Rio ou Buenos Aires) e os jogos pan americanos irão definir as vagas restantes. Estão tentando a igualdade de gênero em número de atletas já. Isto significa que teremos 44 países representados no Laser Radial em 2020. A média de participação de países no mundial radial feminino é de em torno de 25 países. De onde surgirão 20 novos países neste curto prazo?

Fim do monopólio para a fabricação de barcos Olímpicos

Esta é uma grande novidade e poderia trazer impacto real na melhoria do nosso esporte. Confesso que como ex-Laserista gostava do conceito de um fabricante monopolista. Afinal, isto significaria, na teoria, uma igualde de condições entre os velejadores. Um só fabricante também teria ganho de escala e preços melhores. Mas a realidade é muito diferente. Os fabricantes monopolistas não mantem um bom controle de qualidade e praticam preços acima do mercado. Um exemplo foi o problema com as quilhas das pranchas RSX na campanha para Londres. Os velejadores da classe precisavam comprar dezenas até encontrar uma que funcionasse. Mesmo durante os Jogos os velejadores encontraram problemas com o material fornecido. Com o monopólio, existe também a possibilidade de velejadores com melhor relacionamento com os fabricantes serem beneficiados. Enquanto um poderia escolher o caimento do mastro e peso do seu Laser, outro teria que pegar um barco na sorte. Mas a gota d’água foi o completo caos no lançamento da classe Nacra 17. Longas filas para comprar o barco, diversos defeitos de fabricação nas caixas de bolina, velas com dimensões e formatos diferentes. Sem falar dos preços exorbitantes. A vela é o único esporte equipado onde existe o monopólio na fabricação do equipamento. É verdade que no futebol, vôlei e tênis a bola é fornecida de um único fabricante. Mas cada atleta pode trazer sua raquete, bicicleta, remo ou chuteira. Isto é inclusive uma preocupação dos dirigentes da World Sailing que poderiam estar passíveis a processos legais sobre beneficiamento para estes fabricantes. As submissões 013-17 014-17 015-17 016-17 e 018-17 exigem o fim do uso de marcas registradas, como a Laser, em equipamentos Olímpicos. Não seria mais permitido a seleção de um barco olímpico que não pudesse ser construída por qualquer pessoa. Seria o fim do monopólio da Laser, Nacra e NeilPride!

Minha posterior experiência na classe Snipe me ensinou que é muito melhor ter o mercado de barcos aberto com boas regras e uma classe bem administrada. O sucesso da classe no Brasil se deve principalmente à fabricação nacional de um barco extremamente competitivo. O início de um pequeno estaleiro para fabricação de monotipos não necessita de um grande investimento e deve ser incentivada.

Mas, apesar do apoio do presidente da World Sailing e do seu board, a proposta de acabar com o monopólio perdeu feio na votação. Os interesses dos monopólios estão bem enraizados dentro do conselho da World Sailing. Veja a discussão a partir de 2h16 (https://www.youtube.com/watch?v=jW0okGYWzBQ)

Regras

Na minha especialidade, regras, estão sendo discutidas alguns ajustes para corrigir erros e isto será o tema de um novo artigo. Mas finalmente os umpires estão colocando na agenda a utilização da tecnologia a serviço dos competidores. Tracking, drones e demais ferramentas poderiam ser utilizadas para auxiliar umpires e juízes. Outro ponto interessante foi a proposta do presidente do comitê de regras que queria acabar com o prinicipio do reconhecimento das infrações nas regatas de flotilha com umpires, assim como o que acontece no match race onde o velejador só precisa se penalizar se o juiz apitar. Uma alteração que mudará a forma que as regatas são disputadas foi a alteração do caso 78 proposta pela submissão http://www.sailing.org/tools/documents/16517RacingRulesofSailingCase78-[23124].pdf. Ela foi aprovada e limita a marcação a outro barco para beneficiar numa seletiva.

Vela de Oceano

A reunião da World Sailing for realizada em conjunto com a reunião da ORC. foi a criação do primeiro campeonato mundial de veleiros de oceano. As regras de medição estão atraindo cada vez mais o pessoal de barcos de cruzeiros e aumentando muito a participação. Continua o desenvolvimento de um sistema universal de medição (Universal Measurement System – UMS). O medidor Rogerio Albuquerque explicou que isto vai facilitar um barco a medir em diversos sistemas de medição, aumentando chances de qualquer barco de série e atraindo mais gente para a vela de oceano. No lado, competitivo, foi criado o Campeonato Mundial de Vela de Oceano. Ele será disputado em classes monótipos com regatas em águas abrigadas e costeiras, conforme tendência já discutido no meu artigo “O fim da ORC!”.

E-sailing

Desculpem o tom de brincadeira do meu primeiro artigo. Esse negócio é sério e movimenta milhões. A indústria do vídeo game já supera a do cinema. Há programas e canais de televisão transmitindo competições ao vivo.  Os melhores jogadores ganham igual a jogador de futebol e as finais são feitas em estadios de futebol com dezenas de milhares de pessoas assistindo ao vivo. A Intel é a nova patrocinadora do Comitê Olímpico Internacional e o que era brincadeira vai virar esporte. O mundial de vela virtual foi aprovado e o comitê de regras já está trabalhando na adaptação das regras.

Este é o resumo do que aconteceu. Obrigado ao Torben e ao Marco Aurélio por enviar as informações diretamente das sala de reunião. Obrigado também pelos ótimos comentário de todos enquanto ia atualizando as notícias no facebook. Agora é hora de revisar também os rumos da vela nacional!

 

Regra 69 – Má Conduta (por regras.com.br)

A regra 69 é utilizada para impor uma ação disciplinar a um competidor e, a partir de 2017, uma pessoa de suporte (ex: técnicos) por má conduta, grave infração a uma regra ou falta de boas maneiras. Existe uma discrepância entre a regra 64.4(b) que permite penalizar um competidor por uma ação de uma pessoa de suporte enquanto a regra 63.1 diz que um competidor não pode ser desclassificado sem audiência (Relatorio da US Sailing sobre inconsistência das regras)

Ela é provavelmente umas das regras mais faladas por velejadores, organizadores e juízes. Basta começar algum pequeno bate boca que as pessoas começam a falar “Vou te dar uma 69!”. Mas na prática, a regra 69 é raramente utilizada corretamente, pois poucos velejadores e juízes entendem como ela se aplica. A regra 69 tem características diferentes das demais regras. Além disto, a regra 69 muitas vezes se confunde com a regra 2, navegação leal.

A regra 69 não é uma regra que possa ser infringida. Na verdade, a regra 69 é um procedimento que diz como a comissão de protestos deve agir em casos de indisciplina ou má conduta de um competidor. Um velejador não pode protestar outro pela regra 69. Entretanto, qualquer pessoa pode informar um incidente. Ao contrário de um protesto normal, esse relato pode vir de uma pessoa que não esteja envolvida no evento, como um espectador. Esse relato pode ser feito até mesmo oralmente, apesar de que é preferível que ele seja feito por escrito. A partir desse relato, ou da sua própria observação, a comissão poderá convocar uma audiência para apurar o incidente. Em caso de infrações leves, a comissão pode decidir não convocar uma audiência de regra 69 e resolver o problema numa conversa com o competidor. Alguns exemplos de má conduta que podem levar a uma ação sob a regra 69:

  • Brigar
  • Roubar
  • Intimidar
  • Ofender
  • Avariar deliberadamente a propriedade, incluindo o barco de outro competidor
  • Intencionalmente se recusar a cumprir com instruções da autoridade organizadora
  • Abusar de oficias de regata: medidores, juízes e comissão de regata
  • Mentir numa audiência de protestos
  • Infringir deliberadamente uma regra com o objetivo de levar vantagem.
  • Outras formas de trapaça: falsificar de certificado de medição, não montar uma marca para ganhar posições ou retirar o lastro do barco.

Além dessas razões, a regra P2.3 diz que a comissão de protestos deve considerar convocar uma audiência de regra 69 quando um barco recebe a terceira bandeira amarela por infração a regra 42 (propulsão).

Os procedimentos de uma audiência de regra 69 são diferentes de um protesto comum. A comissão de protestos deve ser formada por pelo menos três membros e deve convocar o competidor protestado por escrito. Nessa convocação deve constar em detalhes quais são as alegações de má conduta de forma a permitir o acusado a preparar a sua defesa. Por não se tratar de um protesto da parte 2,3 ou 4; o competidor pode ser representado ou assistido por qualquer pessoa a sua escolha, incluindo um amigo, familiar, técnico ou mesmo um advogado. Quem fez o relato do incidente, mesmo que seja membro da comissão de regatas ou organização, não é considerado uma parte do protesto. Portanto ele só pode agir como testemunha. Essa pessoa não tem direito de fazer perguntas ao competidor e também não tem direito de apelar caso não concorde com a decisão da comissão de protestos.

O resultado da decisão da audiência deve ser postado no quadro de avisos. Já os fatos e conclusões devem ser mantidos em confidencialidade, já que a sua publicação pode motivar um processo legal. Caso o protestado apresente alguma carta de desculpas, ela deve ser publicada no quadro de avisos e poderá contribuir para reduzir a punição ou levar a comissão de protestos a somente advertir o competidor. A regra 69.2(h) lista diversas alternativas de punição. O competidor pode ser excluído de uma ou mais regatas já realizadas, nesse caso, o barco deve ser desclassificado e essas regatas não poderão ser descartadas. O competidor ou o barco podem ser excluídos das regatas restantes. Caso somente o competidor seja excluído das regatas restantes, o barco poderá continuar competindo desde que as regras em vigor permitam a substituição de tripulantes. A penalidade mais severa é a exclusão do barco ou competidor de todas as regatas da série. A regra 69 permite a comissão de protestos a aplicar qualquer outra punição no âmbito de sua jurisdição. Ela pode, por exemplo, excluir o competidor do local do evento ou, quando há danos, cobrar o ressarcimento do prejuízo. A comissão de protestos não pode suspender um competidor, mas uma punição acima de DNE (desclassificação da regata sem descarte) deve ser informada a CBVELA que poderá suspender a elegibilidade do velejador. Esta é uma mudança significativa na regra 2017. Antes toda punição, mesmo que a desclassificação de uma regata, deveria ser comunicada a autoridade nacional. Por isto, muitas comissões de protestos evitavam penalizar um competidor por infrações mais brandas.

A regra 69 é complexa e é comum a comissão de protesto evitá-la. Todavia, o esporte não pode tolerar a má conduta de competidores e a regra 69 é uma forma de se lida com esse problema.

Por Ricardo Lobato / www.regras.com.brwww.regras.com.br

TEXTO POR RICARDO LOBATO: afinal, o que mudou nas regras de regata 2017-2020?

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A cada 4 anos, logo após o ano das Olimpíadas, o livro de regras é revisado. Neste momento, muitos velejadores ficam preocupados com o que mudou. Mas na verdade, a grande maioria das alterações são ajustes para fazer o jogo dentro d’água mais parecido com o do livro.

Em 1997, houve uma grande alteração nas regras e na terminologia. Antes desta alteração, o barco de sotavento podia orçar o quanto quiser até o barco de barlavento assumir a posição de “mastro pelo través”. Desta vez as alterações foram bem menos significantes e estarei explicando as principais. Uma particularidade desta revisão é que a tradução para o português foi feita pelo técnico da CBVELA Alexandre Saldanha que procurou utilizar expressões de uso comum como “cambar” ao invés de “virar por davante”.

Nas novas regras as punições ficaram mais flexíveis. Por exemplo, a desclassificação sob a regra 2 (Navegação Leal) pode ser descartável ou não, a critério da comissão de protesto. Assim como a punição por jogar lixo na água, que agora pode ser menor que uma desclassificação. Continuar lendo “TEXTO POR RICARDO LOBATO: afinal, o que mudou nas regras de regata 2017-2020?”