Tira-teima: quando uma regata deve ser anulada? (Por Ricardo Lobato)

Quando uma regata deve ser anulada? Entenda as Regras de Condução de Regata da Classe e.

Muitas dúvidas rondam os critérios para abandonar uma regata. Estas dúvidas têm fundamento. Observe o que diz a regra 32, sobre as razões para a Comissão de Regata anular uma regata. http://www.regras.com.br/site/images/Docs/RRV2017_2020.pdf

32 ENCURTANDO OU ANULANDO APÓS A LARGADA

32.1 Após o sinal de largada, a comissão de regata pode encurtar o percurso (bandeira S com dois sinais sonoros) ou anular a regata (bandeira N ou N sobre H ou N sobre A, com três sinais sonoros),

(a) por mau tempo,
(b) por insuficiência de vento que torne improvável a chegada de qualquer barco no limite de tempo estabelecido,
(c) por uma marca ter desgarrado ou desaparecido, ou
(d) por qualquer outra razão que afete diretamente a segurança ou justiça da competição.

O Primeiro problema é que a comissão pode anular a regata por uma ou mais das razões listadas acima. Portanto, como o termo “pode” é permissivo e não mandatório, se a CR anular ou não a regata, ela não estaria cometendo um erro passível de reparação. A regra não a obriga a anular uma regata. O segundo problema está no item (d). Afinal o que significa “qualquer outra razão” que afete a justiça da competição? Uma grande rondada de vento no primeiro contravento de uma regata de um campeonato nacional pode ser motivo para se anular uma regata, enquanto numa regata oceânica é aceitável ficar sem vento por diversas horas. A regra é vaga propositalmente, pois deve atender a todos os tipos de regatas do nosso esporte.

Para contornar este problema, os principais eventos seguem alguns guias. O mais conhecido é a Política de Gerenciamento de Regata da World Sailing para as regatas da Copa do Mundo (http://www.sailing.org/tools/documents/20171003Updatedto201720rulesandModifiedRaceManagementPoliciesFleetRacing-[23286].pdf). Segundo as políticas de gerenciamento da World Sailing, no caso de uma mudança substancial de vento (mais de 25 graus) a CR, antes da metade da primeira perna, pode anular a regata. Depois disto, ela deve ajustar as marcas. Somente no caso de um novo vento que ocasione a inversão da flotilha, a CR pode anular a regata depois da primeira metade do contravento. Mas as políticas deixam bem claro que ela é somente um guia e falhas não são passíveis de pedido de reparação.

Já a Classe Snipe elaborou um documento chamado Regras de Condução de Regata (http://www.snipe.org/images/2019/SCIRA_2019_Rules-of-Conduct.pdf), onde estão definidos os critérios para se anular uma regata de um campeonato de nível nacional ou acima. Nestas regras está escrito que uma rondada de mais de 20 graus no primeiro contravento ou uma rondada de mais de 40 graus durante a regata, a regata deve ser abandonada. A rondada é em relação a direção da próxima marca. Portanto se rondou 15 graus para um lado e 15 para o outro, não seré considerado como uma rondada de 30 graus. Além isto, a rondada deve ser sustentada por um período de tempo. Note que a Classe Snipe utiliza a palavra deve ao invés de pode, utilizada nas políticas da World Sailing. Como Comodoro da Classe entre 2014-2015, eu coordenei a revisão deste documento. Minha ideia inicial era transformar o documento no mesmo estilo das políticas da World Sailing, mas o desejo da classe é realmente obrigar que os critérios sejam seguidos à risca pela CR. Para isto, as “Regras de Condução de Regata” criaram o papel do “SCIRA Representative”, uma pessoa da Classe que fica ao lado do gerente de regata para garantir que os critérios da classe estejam sendo seguido. Diferentemente da World Sailing, a classe no item 18 deixa claro que estas regras são compulsórias e devem ser seguidas a risca pela CR. O não cumprimento destas instruções são sim passíveis de pedidos de reparação de um barco. Além disto, o representante da classe pode demandar a anulação da regata e a Comissão de Protesto pode anular uma regata quando decide que estas regras não foram cumpridas.

Mas seriam as Regras de Condução de Regata realmente regras? Veja a definição de regras enontradas no livro de regras:

Regra

As regras deste livro, incluindo as Definições, Sinais de Regata, Introdução, preâmbulos e as regras dos apêndices relevantes, mas não os títulos;
Os Regulamentos da World Sailing: Código de Propaganda, Código Antidoping, Código de Corrupção e apostas, Código Disciplinar, Código de Elegibilidade e Código de Classificação de Competidores; respectivamente Códigos 20, 21, 37, 35, 19 e 22
as prescrições da autoridade nacional, exceto quando alteradas pelas instruções de regata ou aviso de regata, respeitadas as prescrições feitas pela autoridade nacional à regra 88.2, se houverem;
as regras de classe (para barcos competindo nos sistemas corrigidos ou de “rating”, as regras desses sistemas são regras de classe);
o aviso de regata;
as instruções de regata;
qualquer outro documento que regulamente o evento.
O item (d) diz que as regras de classe são consideradas regras. Como as “Regras de Condução de Regata” se encontram no livrinho da classe http://www.snipe.org/images/2018Rules/2018_2020SnipeRulebookDIGITAL.pdf há muita confusão se elas seriam consideradas regras de classe ou não.

Esta confusão foi esclarecida quando a classe em 2018 adotou o modelo da World Sailing de regra de classe. Veja que a página 32 do handbook passou a chamar as antigas “General Restrictions” de “Class Rules”. De acordo com as Regras de Equipamentos da Vela http://www.sailing.org/tools/documents/ERS20172020UpdatedPrintVersion-[20912].pdf somente as regras de definem o barco, seu uso, equipamento e tripulação são consideradas regras de classe. Observe o que diz o item C.2.1 destas regras:

Class Rules

The rules that specify:

the boat and its use, certification and administration. the crew.
personal equipment and its use, certification and administration.
portable equipment and its use, certification and administration.
any other equipment and its use, certification and administration.
changes to the Racing Rules of Sailing as permitted by RRS 86.1(c).
The term includes rules of handicap and rating systems.
Portanto, as “Regras de Condução de Regata” não são regras! Para elas serem aplicáveis a solução encontrada foi reescreve-las nas instruções de regata. O modelo de Instruções de Regata está disponível em http://www.snipe.org/images/2019/2019_si_template-final.doc. Mas isto não quer dizer também que, caso esqueçam de coloca-las nas Instruções, elas não possam ser seguidas pela CR como critério para definir se uma regata esta sendo justa, de acordo com a regra 32(d). É o desejo da classe que elas sejam rigorosamente seguidas.

É possível que algum campeonato queira modificar algumas destas “Regras de Condução de Regata”. Isto não é recomendável, mas lembro que em 2010 fizemos a primeira regata do Mundial de Star dentro da Baia de Guanabara quando as “Regras de Campeonato da Star” exigiam uma distância mínima da costa. Em acordo com a classe, programamos uma regata dentro da baia. A regra 86.1(c) exige que a classe aprove por escrito uma alteração de uma regra da classe. Mas lembre-se que as regras de “Regras de Condução de Regata” não são consideradas regras de classe.

O problema ocorre quando o campeonato não atenta para estes detalhes. O segredo do sucesso de um campeonato é discutir estas políticas e deixar elas claras, antes do início da regata. No caso da Classe Snipe estas definições devem estar nas Instruções de Regata. Em outras situações, é suficiente a elaboração de um guia ou apenas anunciar os critérios numa reunião de comandantes. É fundamental que estes critérios sejam cumpridos do inicio ao fim do campeonato. É comum uma comissão com pouca experiência ir afrouxando os critérios durante a regata, principalmente quando está atrasada na programação.

Mas o critério de anulação de regata é apenas uma das questões que devem der definidas antes do evento. Outras questões importantes devem ser definidas antes do campeonato começar. Por exemplo, quando a CR ou CP irá protestar um barco? Eles devem protestar um barco que bateu na boia? É comum em eventos importantes a CP publicar um documento explicitando seus critérios de atuação. O mesmo vale para medição. O que será verificado? Como será o procedimento de inspeção durante o evento? Um outro tema sempre polemico são os critérios para aplicação da regra 42. Recentemente elaborei junto com um grupo de velejadores e juízes especialistas na Classe Snipe um guia de aplicação da regra 42 (http://www.snipetoday.org/wp-content/uploads/2018/09/https__snipe.org_images_2017_2018_Rule42_Snipe_2018_V1_1-1.pdf). Tudo deve ser definido e estar claro para todos os envolvidos antes de começar.

Normalmente quando problemas ocorrem, costumamos colocar a culpa na Comissão de Regata ou Comissão de Protesto. Mas a responsabilidade sempre é nossa como Classe. É fundamental que a Classe se comunique com os oficiais que conduzem a regata antes do evento para garantir que a regata ocorra de acordo com o padrão já estabelecido. A CR e CP devem entender da mesma forma como o evento deve ser conduzido, evitando que utilizem critérios diferentes nas suas decisões.

Um comentário sobre “Tira-teima: quando uma regata deve ser anulada? (Por Ricardo Lobato)

  1. Xandi Paradeda

    Para a classe se comunicar com a CR e CP antes do campeonato começar, os mesmos não podem chegar ao clube sede no dia da primeira regata valendo.
    Ai sim concordo q a culpa é da classe, q aceita q os oficiais cheguem sem nenhuma antecedência.

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