Como protestar? Por Ricardo Lobato

Há vinte anos era possível vencer um campeonato somente com boa velocidade e evitando envolvimento em situações mais apertadas. Com o aumento da competitividade na vela, as táticas de barco contra barco vêm se tornando cada vez mais necessárias. O conhecimento das regras tornou-se um fator decisivo numa disputa de campeonato. Portanto se você gosta de competir em alto nível, você vai ter que gostar de conhecer as regras e, se necessário, protestar.

A vela tem uma característica única: o competidor é também juiz, podendo protestar outros competidores ou reconhecer sua própria infração, se autopenalizando. O pronto reconhecimento de uma infração é o princípio básico da esportividade na vela. Isso é que torna nosso esporte nobre. Ao contrário do futebol, onde é aceitável um jogador simular uma falta para enganar o juiz, a vela depende da honestidade dos competidores. Entretanto, em algumas situações, pode acontecer dos velejadores discordarem qual barco infringiu uma regra. Para resolver esse impasse, é necessário protestar. É nesta hora que muitos velejadores ficam frustrados por não saberem protestar.

Para ter um protesto validado, segundo a regra 61, três requisitos devem ser atendidos pelo protestante:

• Informar o barco protestado na primeira oportunidade, bradando “protesto” e expondo uma bandeira vermelha (para barcos menores de 6 metros a bandeira não é necessária);

• Preencher um formulário de protesto identificando o incidente;

• Entregar o protesto dentro do prazo estabelecido pelas instruções de regata.

A outra parte tem o direito de receber uma cópia do protesto. A preparação é muito importante. Normalmente, não há muito tempo, mas você deve tentar praticar seu testemunho com um colega antes da audiência. Nas Olimpíadas ou regatas mais importantes é comum encontrar um especialista em regras para auxiliar nesta preparação.

Uma vez validado o protesto, a Comissão de Protestos (CP) pedirá ao representante do barco protestante descrever o incidente. Ele deve mostrar o incidente utilizando os modelos de barco que são fornecidos pela CP. Segure os modelos de forma que todos vejam e movimente-os de forma precisa: mostre corretamente a distância e os barcos, seus ângulos e, no caso os modelos tenham retranca, posicione-a corretamente.  O protestado, mesmo tendo uma opinião diferente sobre o incidente, não deve interromper o testemunho e muito menos fazer caras e bocas. O protestado também terá a oportunidade de contar a sua versão do incidente logo a seguir. É uma boa ideia tomar notas do testemunho do outro velejador, para utilizá-lo nas considerações finais. Finalizado essa primeira etapa, a CP irá permitir que as partes façam perguntas umas às outras.

Utilize as perguntas para apurar os fatos e nunca para fazer acusações. Também não peça para a outra parte confirmar uma afirmação sua, pois será muito fácil para ela negar. Use as perguntas para destacar algumas inconsistências feitas no testemunho da outra parte. Não se sinta obrigado a fazer perguntas. Se você estiver satisfeito com o testemunho da outra parte, não abra oportunidade para a entrada de novas informações que poderão prejudicar o seu caso. Ao responder uma pergunta, preste bem atenção ao que foi questionado, pense bem e responda diretamente. Não use a resposta para contar seu caso novamente ou acrescentar outras evidências. A CP poderá fazer suas próprias perguntas antes de convidar as testemunhas.

Uma boa testemunha pode ser muito útil para o seu caso, mas é muito comum o velejador trazer uma testemunha que arrasa com seu próprio caso. Alguns velejadores acreditam que não falar com a testemunha antes do protesto pode dar mais credibilidade ao testemunho. Definitivamente, essa é uma atitude tola. Também não é recomendável tentar dizer a testemunha o que ela deve falar. A atitude mais eficiente é perguntar a testemunha, antes do protesto, o que ela viu. Caso considere o testemunho relevante, convide-a, então, para testemunhar. Uma boa testemunha deve ter as seguintes características: bom posicionamento em relação ao incidente, ser um velejador experiente e, de preferência, não estar diretamente associado a alguma das partes. Lembre-se que qualquer pessoa que viu o incidente pode testemunhar, mesmo sendo parte interessada. Não é preciso que a testemunha seja outro competidor.

No final, ‘é a oportunidade para as suas considerações finais. Não repita tudo o que você falou e nem traga novas evidências. Este momento é para você apresentar a sua conclusão. Explique por a sua versão dos fatos é mais factível que a apresentada pela outra parte. No final cite as regras que considere que foram infringidas ou não. Mais importante, aceite a decisão da CP com esportividade. É uma tarefa difícil julgar um incidente com base somente nos testemunhos.

Por Ricardo Lobato / regras.com.br

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