Reunião da World Sailing – Entenda o que será decidido a partir desta sexta (por Blu)

Nesta sexta e sábado o Conselho da World Sailing se reune para decidir o futuro da vela. Como ex-membro do Comitê de Regras e do Sub-comitê de umpires, tive a oportunidade de participar da reunião da World Sailing duas vezes. São nove dias de reuniões em diversos comitês para tudo ser decidido neste final de semana. O esquema abaixo define o processo de tomada de decisão da World Sailing.

 

Uma crítica constante feita aqui era que não havia uma conexão entre os representantes do Brasil na reunião e os velejadores. Diversas iniciativas foram feitas, principalmente com a criação do Comitê Técnico de Vela (CTV) e a Comissão de Atletas da CBVELA, todos eleitos diretamente. Esta reunião marca o início da atuação do Torben Grael no conselho da World Sailing como Vice-Presidente. A última vez que tivemos um brasileiro lá foi durante o período entre 1986 e 1994 com Peter Siemsen. Ele foi responsável pela criação de todo o regulamento que permitiu a propaganda nos barcos, iniciando o profissionalismo na vela.

No meio de dezenas de propostas, reuniões e muita politicagem é difícil extrair alguma coisa que possa impactar positivamente o nosso esporte. Separei então alguns tópicos relevantes e outros curiosos.

Não deixe de enviar  seus comentários. Principalmente sobre o formato das Olimpiádas e sobre o fim do monopólio na fabricação de barcos de classes Olímpicas.

Olimpíadas 2024:

Sem dúvida é o tópico mais polêmico. A decisão das classes será feita somente na reunião de maio de 2018. O Comitê de Eventos apreciou algumas submissões sobre alterações no formato. Duas propunham que o vencedor da última regata levaria a medalha de ouro. A Submissão japonesa tinha uma largada com uma linha torta e com posicionamento favorecendo o primeiro do campeonato até o ultimo dia. Já a proposta da classe RSX criaria uma eliminatória até a última regata com 3 pranchas somente. Bem ao estilo da Star Sailing League ou da Snipe Challenge realizada este ano no Rio de Janeiro.

Mas nada disto agradou o Comitê de Eventos. Entretanto, numa votação apertada (8×6), foi recomendada a troca da medal race por três regatas de 10 minutos no último dia para a classe 49er e FX. As três regatas teriam peso 1 cada e seriam corridas num “estádio”. Na votação informal entre os atletas no facebook esta proposta estava sendo recusada por grande margem. Vamos ver o que o conselho irá decidir. O formato do Nacra 17 também pode ser alterado enquanto as outras classes tem como recomendação a manutenção do formato tradicional com uma regata da medalha com pontos dobrados.

Fim do monopólio para a fabricação de barcos Olímpicos

Esta é uma grande novidade e pode trazer impacto real na melhoria do nosso esporte. Confesso que como Laserista gostava do conceito de um fabricante monopolista. Afinal, isto significaria, na teoria, uma igualde de condições entre os velejadores. Um só fabricante também teria ganho de escala e preços melhores. Mas a realidade é muito diferente. Os fabricantes monopolistas não mantem um bom controle de qualidade e praticam preços acima do mercado. Um exemplo foi o problema com as quilhas das pranchas RSX na campanha para Londres. Os velejadores da classe precisavam comprar dezenas até encontrar uma que funcionasse. Mesmo durante os Jogos os velejadores encontraram problemas com o material fornecido. Com o monopólio, existe também a possibilidade de velejadores com melhor relacionamento com os fabricantes serem beneficiados. Enquanto um poderia escolher o caimento do mastro e peso do seu Laser, outro teria que pegar um barco na sorte. Mas a gota d’água foi o completo caos no lançamento da classe Nacra 17. Longas filas para comprar o barco, diversos defeitos de fabricação nas caixas de bolina, velas com dimensões e formatos diferentes. Sem falar dos preços exorbitantes. A vela é o único esporte equipado onde existe o monopólio na fabricação do equipamento. É verdade que no futebol, vôlei e tênis a bola é fornecida de um único fabricante. Mas cada atleta pode trazer sua raquete, bicicleta, remo ou chuteira. Isto é inclusive uma preocupação dos dirigentes da World Sailing que poderiam estar passíveis a processos legais sobre beneficiamento para estes fabricantes. As submissões 013-17 014-17 015-17 016-17 e 018-17 exigem o fim do uso de marcas registradas, como a Laser, em equipamentos Olímpicos. Não seria mais permitido a seleção de um barco olímpico que não pudesse ser construída por qualquer pessoa. Seria o fim do monopólio da Laser, Nacra e NeilPride!

Minha posterior experiência na classe Snipe me ensinou que é muito melhor ter o mercado de barcos aberto com boas regras e uma classe bem administrada. O sucesso da classe no Brasil se deve principalmente à fabricação nacional de um barco extremamente competitivo. O início de um pequeno estaleiro para fabricação de monotipos não necessita de um grande investimento e deve ser incentivada.

Mulheres e Sustentabilidade

Uma novidade desta reunião foi a transmissão ao vivo. Acompanhei o fórum dobre a participação das mulheres na vela e o fórum de sustentabilidade.

Fórum das Mulheres:  A percepção geral é que as mulheres têm as mesmas oportunidades que os homens do Optimist até as classes Olímpicas. A dificuldade ocorre na vela de oceano e America’s Cup. Mas não saiu nada da discussão de ação prática que poderia ser feita pela World Sailing.  O exemplo da Volvo Ocean Race seria o caminho. A regra da regata foi alterada para incentivar a escalação de pelo menos duas velejadoras. A ABVO poderia fazer algo semelhante por aqui. Que tal bonificar o barco em 1s/milha para cada tripulante feminina? Nos barcos de classe, poderia ser permitido uma tripulante feminina que não somasse no peso final da tripulação.

Fórum de Sustentabilidade: Outro buzzword deste evento é “sustentabilidade”. O fórum trouxe diversas propostas de ideias,  mas a verdade é que muita pouca ação prática foi realizada. Meu último ato na CBVELA foi escrever uma submissão para restringir os barcos de técnicos. A proposta foi completamente rechaçada no Comitê de Eventos ano passado. Inacreditável ter barcos como o Volvo 65 que precisam navegar com o motor ligado para poder pressurizar o sistema de quilha pivotante. Para não dizer que não há propostas de mudanças sobre o tema, a Federação Inglesa propôs que a regra 55 (lixo na água) não pudesse ser alterada, como ocorre na Volvo Ocean Race. Confira o artigo Santos-Rio x Volvo Ocean Race.

Outros assuntos:

Na minha especialidade, regras, estão sendo discutidas alguns ajustes para corrigir erros e isto será o tema de um novo artigo. Mas finalmente os umpires estão colocando na agenda a utilização da tecnologia a serviço dos competidores. Tracking, drones e demais ferramentas poderiam ser utilizadas para auxiliar umpires e juízes.

Outra novidade interessante foi a criação do primeiro campeonato mundial de veleiros de oceano. Ele será disputado em classes monotipos, conforme tendência já discutido no meu artigo “O Fim da ORC”. Mas a proposta mais incrível foi a Submissão 021-17, que determina que somente a World Sailing pode fazer o mundial virtual de vela (jogo on-line)!