Patrícia Freitas relata experiência na raia olímpica de 2020

Patricia Freitas foi a primeira velejadora do Brasil a competir na raia olímpica de 2020. Ela esteve no Japão onde disputou o Mundial de RS:X entre os dias 16 e 23 deste mês. Depois de dez regatas em meio a muita onda por conta de um terremoto, ela ficou com a 22ª colocação e fez um relato da experiência em seu blog pessoal. A campeã foi a chinesa Peina Chen. Confira os resultados aqui: http://bit.ly/2xwkskS

Confira o relato da Patricia que foi postado no blog dela: http://bit.ly/2yHuSMj

O Japão é um país pequeno. Deve servir de pré-requisito para tudo que nele existe.

As pessoas, os quartos, os banheiros, as porções de comida são pequenas. As mesas, cadeiras e degraus são baixos. O espaço designado para cada passageiro nos bancos longitudinais do bonde são microscópicos. Claro que no caso do bonde há uma grande vantagem pois no ombro do estranho encontra-se o aconchego de uma breve cochilada. Os gestos são reservados, o contato humano é restrito. Deve ser o único lugar do mundo onde o pudor do olhar vence a curiosidade. Existe um embaraço da parte das mulheres no que diz respeito à quantidade de pele à mostra. Não estou em Tóquio, pode ser que lá seja diferente. Por trás desse embaraço porém o desejo da provocação sobrevive, derivando soluções estranhas como blusinhas decotadas usadas sobre camisetas de manga comprida. Parece que o monstro da padronização fashion europeia se adaptou para sobreviver no Japão, trocou o sex-appeal escancarado por um faz de conta que não ofende a ninguém.

Na verdade, o compromisso moral de não ofender a ninguém parece ser via de regra no Japão. A generosidade, cordialidade, elegância, respeito são latentes. A delicadeza dos gestos e do trato chegam a embaraçar o ocidental distraído. Procuro copiar àqueles a minha volta para me certificar de que não estou falhando ou causando ofensa, não ouso desequilibrar a paz que paira no ar com meus gestos rudes e animalescos. A noção de higiene é outra completa, somos uns porcos, nós ocidentais. Estar num ambiente onde as pessoas demonstram tanta consideração e respeito ao próximo nos obriga a rever nossos costumes. Tudo te leva a desacelerar e olhar as coisas com maior dedicação: o hashi não corta ou perfura a comida, a dificuldade de comer o arroz presente em todas as refeições nos obriga a dedicar tempo e atenção à tarefa; o aperto de mão ou pior, nosso amado joinha seguido de ‘opa!,’ é substituído pela elegância de curvar-se ao próximo, mãos sobre coxas. O estranho que te atendeu no restaurante deixa de ser uma voz de fundo para enfim ganhar um rosto, um olhar, uma expressão, um nome e uma história pois você dedicou alguns segundos do seu dia para curvar-se respeitosamente, ninguém está acima de ninguém. Há uma profunda beleza por trás de um gesto tão simples.

No entanto, achei difícil relacionar-me emocionalmente com Fujisawa. Não há parques ou pontos de encontro, as poucas áreas verdes são para a preservação de templos. A cidade não funciona da mesma forma que as cidades ocidentais. Nenhuma solução local substitui os centros urbanos com os quais estamos acostumados, aquele onde a Catedral é protagonista, seguida de uma praça logo a frente onde o comércio ocorre. A partir da Catedral, a cidade que conhecemos encaixa suas outras funções como habitação, serviços, museus ou bibliotecas, parques e, finalmente, na borda externa a indústria e os outlets. Nada de especial acontece em Fujisawa, especialmente considerando que seu vizinho muito próximo Kamakura já foi a capital do Japão. Não há nenhum ponto de encontro e uma vez que você tica todos os templos da lista, não há mais atrações. Mesmo os templos são preservados de maneira que não esperamos, as plantas e materiais originais foram substituídos ou reconstruídos de maneira a torná-los mais comerciais. As casas são muito simples e o arranha-céu não é a tipologia dominante como

Imaginei que seria em todo o Japão. Durante um jantar tranquilo com um vovô japonês que decidiu se convidar, descobri que as casas são feitas de material simples e leve de propósito, a fim de diminuir o risco de morte em caso de terremotos. O skyline de Fujisawa é, portanto, casas de tres andares marrons. Incrivelmente entediante mas muito funcional. Pelo menos os japoneses são workaholics e o comércio está sempre aberto para nos manter entretidos.

Não foi fácil ficar um mês na Terra do Sol Nascente. A semana do Campeonato Mundial foi de condições pouco variadas, vento fraco e mar picado. Os ocidentais levaram uma surra dos atletas da Ásia, especialmente dos chineses, que há pouco correram o Campeonato Chines, um dos mais importantes de todo o ciclo olímpico para eles. Todo o resto do mundo esperava uma competição difícil digna de mundial da classe mas realmente fomos surpreendidos, ainda mais no ano seguinte aos JO, onde tudo acontece com mais preguiça. Não para eles! Foi o meu pior resultado em tres anos, que baque!! Ainda mais estreando a nova raia olímpica. A maior dificuldade foi encontrar na alimentação local a riqueza que temos na comida de casa. As frutas e legumes são importados e portanto caríssimos. A escassez desafiou a culinária japonesa, que revidou com resiliência, diria. Pele, estômago, intestinos, fígado suínos, bovino e de frango são pedidos básicos, sempre acompanhado do fiel arroz. E acaba por aí, troque o animal terrestre por peixe de vez em quando. Fiquei desnutrida no mês que passei aqui, corri o campeonato fraca e cansada. Suspeito que tenha sido assim para todos os ocidentais Pela primeira vez na história da RS:X nenhum polonês competiu a final. Pela primeira vez na história do windsurf o pódio feminino é composto apenas por chinesas.

É, ainda bem que viemos tres anos antes!!”

2 comentários sobre “Patrícia Freitas relata experiência na raia olímpica de 2020

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