NN especial Veleiros Clássicos Brasileiros: BL 321 ARIES III

O projeto do Frers F&C 43 foi um sucesso desde o primeiro barco construído, o Fjord VI, em 1969 por German Frers. Foi o primeiro projeto feito pelo Frers pai em parceria com seu filho homônimo. O Fjord VI, gêmeo do Aries III foi 2º colocado geral e 1º na classe na Admiral’s Cup de 1969, época em que a regata estava entre as mais importantes do mundo. Um ano mais tarde mais dois barcos com o mesmo projeto foram para a água: o Red Rock II e o Recluta II. Este último foi 5º colocado geral e 1º na classe na Buenos Aires – Rio daquele ano.

Em 1972 foi realizada a regata Santos – Rio com o maior número de veleiros estrangeiros (Sorcery, Charisma e Safari dos EUA e Matrero, Atrevido, Fjord VI e Recluta II da Argentina), o que inspirou Carlos Brancante e João Zarif  a comprarem dois deles e trazerem para o Brasil. Brancante ficou com o Red Rock II, enquanto Zarif ficou com o Recluta II, que pertencia a Carlos Corna e o rebatizou de Aries III. Corna era conhecido na Argentina como o ‘Magnata do Trigo’. Era um mecenas de Germán Frers, de certa forma, patrocinando seus experimentos. Consta que o Recluta II foi acabado a bordo de um navio, a caminho do exterior, para participar de regatas.

De acordo com o Decreto Lei 608, à época, era possível importar equipamento esportivo com total isenção alfandegária. Pagava-se apenas 1% de ‘taxa de melhoria dos portos. Era preciso, entretanto, que o interessado possuísse curriculum esportivo na CBD. A lei era omissa, obviamente, referindo-se a equipamento novo. Diante da incerteza, Zarif permaneceu um bom tempo com o barco na condição de em trânsito no País, até que, função de um apelo que fez a João Havelange, o veleiro foi definitivamente homologado. No ínterim, ao falar no rádio, era desaconselhável falar o verdadeiro e definitivo nome Aries, signo do Zarif, recebendo então, provisoriamente, o codinome de ‘Babalu’:”Alô Delta 24 ‘Babalú’ chamando, câmbio…”

Com bandeira brasileira o Aries III BL321 correu sua primeira Santos – Rio em 1973. Em 1974 foi 5º colocado geral e 2º na classe B na mesma regata. Em 1975 a Regata Santos – Rio recebeu competidores de uma nova geração de barcos, tendo como campeão o Loho Liho, de Ernesto Breda, projeto de 1974. Em segundo ficou o novíssimo Krishna, de Eduardo Souza Ramos. O Aries III conquistou a 5ª colocação geral.

Em 1976 repetiu o 5º lugar na regata. Os vencedores geral no tempo corrigido foram o Wawatoo III, Saga, Peanut Brittle e Kamaurá. O Wawatoo III foi o Fita Azul e baixou em 1h o recorde do Vendaval II que, sob o comando de Fernando Pimentel Duarte detinha o recorde de 24h desde 1951. Em 1980 o Aries III voltou a competir na Regata Santos – Rio fazendo um 4º lugar no geral e 1º na classe B, perdendo apenas para o Five Star, de Roberto Pellicano, Carro Chefe e Tike todos barcos mais novos, de última geração.

Em 1981 o Aries III novamente largou de Santos para o Rio de Janeiro, terminando na 22ª colocação dentre 54 barcos, um resultado considerado insatisfatório pela tripulação. João Zarif e o Aries III foram inseparáveis. Marinheiro e barco fizeram um conjunto admirado e lembrado até hoje. Zarif teria completado o seu centenário de nascimento, em 11 de abril de 2017. Sem dúvida era um ranzinza, mas tinha a grande qualidade de ser um homem absolutamente verdadeiro.

Com informações de Átila Bohm e Zé do Galeão

Fotos no começo da matéria: 

A foto do ARIES III na largada da famosa Santos Rio de 1981 foi tirada pelo Zé do Galeão (José Carlos Lodovice), um tripulante, amigo e admirador do João Zarif.

Autoria da pintura é Zé do Galeão (JCL)

A foto de 2017 (casco preto) foi tirada por Marcos Méndez no Ubatuba Sailing Festival

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A caminho de Cabo Frio – 1974 – Esq. João Zarif, Guga, José Carlos Ludovici, Paulão e Cebolinha. A viagem foi fatídica, gerando uma música (cuja letra é impublicável), redigida em rolo de papel higiênico. Começa assim: Era um belo dia, saí p’ra velejar, fui com o João Zarif, mas logo vi que não ia dar… Lá do cockpit, punha-se a gritar, CAÇA a genoa, para o barco orçar. Logo de manhã, o café era de amargar, do almoço, nem se fale, não dá nem p’ra c…(*) JCL é José Carlos Lodovice (Zé do Galeão)
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Esq. Max Baumert, João Zarif, Chico Arruda e João Carlos Lodovici (leme) – Regata Volta da Laje de Santos – possivelmente entre 1972/73
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Circuito Rio 1974 – em Regata defronte a Macaé e Cabo Frio. A partir da esquerda, Cláudio Emílio Aguiar (Biscoito)+, João Zarif+ (Leme), Jorge Zarif Neto (Guga)+ (atrás da manicaca), Octavio Martins de Siqueira (Oitavinho)+, Pedro Lodovici Neto e José Carlos Ludovici (fotografando).
Os 4 assinalados são falecidos. À frente, apenas o exímio Fernando Pimentel Duarte com o seu ‘Procelária’ (Standfast 40). Com a lestada um pouco apertada, alguns barcos começaram a pendular, quando o Pimentel Duarte vergou uma genoa 2, como se fosse um blooper, à época, vela desconhecida em nossas águas. Com o pendular, um jogo de pratos de aço inoxidável começou a fazer um ‘plec-plec’ que realmente incomodava. O Zarif irritado, pediu ao Pedro que desse um jeito. Nem bem passou pouco tempo, e os pratos recomeçaram a irritar. Pela quarta vez, em vós de comando o Zarif disse: ‘Pedro, traga os pratos !’ E em ato solene, o jogo de pratos argentinos foi lançado ao mar na cozinha do barco já havia um escaninho de cedro, especialmente feito para o dito jogo de pratos. Depois do feito, o espaço permaneceu vago, até os últimos dias de vida do João Zarif… Barco amarelo, chapéu de ráfia amarelo (feito pela Nely), bermudas amarelas, camiseta amarela… 

 

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Esq. Agarrado ao guarda mancebo Zé do Galeão (JCL), com máquina fotográfica Paulão (Paulo Medeiros), sentado a barlavento Cebolinha (Marcelo La Torre Christiansen, Leme João Zarif, a sotavento olhando para  o speedometro Guga.

 

Um comentário sobre “NN especial Veleiros Clássicos Brasileiros: BL 321 ARIES III

  1. ROBERTO ROCHA AZEVEDO

    Algumas observações: A menção a “Em 1972 foi realizada a regata Santos – Rio com o maior número de veleiros estrangeiros” precisa ser corrigida, porque esses barcos vieram para o Circuito Rio, cuja primeira regata foi a Rio-Santos, cujo percurso foi invertido porque tivemos uma regata local em Santos e depois de lá partiu a regata longa Santos-Queimada Grande-Ilha de Santana-Rio. Notar que, no Charisma, de Jesse Philips, os 2 timoneiros eram o Ted Turner e o Dennis Conner.

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