TEXTO POR RICARDO LOBATO: afinal, o que mudou nas regras de regata 2017-2020?

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A cada 4 anos, logo após o ano das Olimpíadas, o livro de regras é revisado. Neste momento, muitos velejadores ficam preocupados com o que mudou. Mas na verdade, a grande maioria das alterações são ajustes para fazer o jogo dentro d’água mais parecido com o do livro.

Em 1997, houve uma grande alteração nas regras e na terminologia. Antes desta alteração, o barco de sotavento podia orçar o quanto quiser até o barco de barlavento assumir a posição de “mastro pelo través”. Desta vez as alterações foram bem menos significantes e estarei explicando as principais. Uma particularidade desta revisão é que a tradução para o português foi feita pelo técnico da CBVELA Alexandre Saldanha que procurou utilizar expressões de uso comum como “cambar” ao invés de “virar por davante”.

Nas novas regras as punições ficaram mais flexíveis. Por exemplo, a desclassificação sob a regra 2 (Navegação Leal) pode ser descartável ou não, a critério da comissão de protesto. Assim como a punição por jogar lixo na água, que agora pode ser menor que uma desclassificação.

Os medidores (agora chamados de inspetores de equipamento que juntos formam o comitê técnico) podem protestar de acordo com a nova regra 60.4. Antes eles só podiam reportar para a Comissão de Regata que formalizavam os protestos. Se a comissão de protestos decidir que uma infração a regra da classe ocorreu em regatas anteriores a regata protestada, ela já pode desclassificar o barco de todas as regatas sem a necessidade de um novo protesto. Ainda na parte técnica, os guarda mancebos dos barcos precisam estar esticados, a não ser que a regra da classe ou outra regra como as Offshore Special Regulations especifique uma deflexão máxima.

Os procedimentos de protestos foram um pouco simplificados. Antes, o protesto precisava dizer onde e quando o incidente ocorreu. Algumas vezes os velejadores trocavam o número da regata e o protesto era invalidado. Agora, o “onde e quando” o incidente ocorreu foram incluídos na lista de itens que podem ser alterados antes ou durante a audiência de protesto. Mas a grande revolução está na introdução do apêndice T.  Ele descreve um procedimento de arbitragem que simplifica muito os protestos.  O velejador pode aceitar uma punição de 30% ao invés de ir para a sala de protestos e ser desclassificado. Para este procedimento valer como regra, é preciso que sua aplicação esteja especificada nas instruções de regata.

A bandeira U de penalidade na largada foi incorporada ao livro e não precisa mais ser descrita nas instruções de regata. Ela é similar a bandeira preta, ou seja, se um barco for identificado no triangulo formado entra a largada e a primeira marca no minuto final antes da largada, ele será desclassificado. A diferença é que, se a largada ou a regata for cancelada, o barco está salvo e pode re-largar, ao contrário do que acontece com a bandeira preta. A boa notícia é que foi rejeitada a proposta de se retirar a bandeira zulu (penalidade de 20%) do livro. Ela é muito utilizada na classe Snipe.

Uma mudança importante é a definição de Pessoal de Suporte (apoio) que inclui os pais, técnicos ou qualquer pessoa associada a um velejador que agora podem também ser penalizadas de acordo com a nova regra 64.4. Eles também estão sujeitos ao regulamento da World Sailing 35 e a regra 69 que tratam de questões disciplinares.

Mas vamos ao que interessa… O que mudou na Parte 2, quando os barcos se encontram?

Logo no preâmbulo da Parte 2 uma alteração relevante: agora um barco pode ser desclassificado mesmo não estando em regata se infringir a regra 14 (Evitando Contato) e haja avarias ou ferimentos. O outro barco continua com o direito de pedir reparação nestes casos. Além desta regra foi incluída a regra 24.1 que diz que um barco que não esteja em regata não deve interferir num barco em regata.

Diversas alterações no texto da regra 18 (Espaço na Marca), mas todas elas foram somente para deixa-las mais claras e não deixar oportunidade para interpretações que fujam do espírito da regra.

A primeira delas foi a inclusão da nova regra 18.2(d).  Ela esclarece quando a regra 18 não mais se aplica: “A regra 18.2(b) e (c) não mais se aplica se o barco com direito ao espaço na marca tiver recebido esse espaço na marca, ou passa de proa ao vento, ou deixa a zona”. A motivação desta alteração veio com uma pergunta ao painel de Perguntas e Respostas da World Sailing em 2013 sobre dois catamarãs montando uma marca de desmarque para o popa (Figura 1.). Esta pergunta ainda está publicada sob o número Q&A B 005.  O barco amarelo, safo de proa na entrada da zona, passa um pouco da marca, na posição 4, resolve dar um gybe. A dúvida era se ele ainda estava protegido pela regra 18 (Espaço na Marca) ou somente as demais regras se aplicavam. Com a nova regra, fica claro que o barco azul cumpriu com a sua obrigação de conceder espaço na marca na posição 4 e a regra 18.2(b) não mais se aplica. Portanto, o barco amarelo na posição 5 não tem direito de passagem pela regra 10.

Figura 1.
Outra situação que havia dúvida se as regras 18 se aplicava é mostrada na Figura 2. A dúvida era se o barco de sotavento, que precisa dar espaço na marca para o barco amarelo, poderia orçar até proa ao vento logo após montar a boia. Com esta nova regra fica claro que o barco azul, exterior ao entrar na zona, pode orçar até proa ao vento desde que haja espaço entre ele e a marca.

Figura 2.

As duas últimas condições da regra 18.2(d) para a regra 18 parar de ser aplicável são bem simples: passar a linha do vento ou sair da zona. Contudo, para saber se a primeira condição foi atendida, isto é, o barco com direito recebeu o espaço na marca devido é preciso entender primeiro o que é espaço na marca. Quando um barco tem direito a espaço na marca ele tem direito a quatro coisas: Espaço para deixar a marca pelo seu lado requerido, espaço para velejar junto marca (quando este for seu rumo correto), espaço para contornar a marca o quanto for necessário para velejar o percurso e espaço para cambar (somente quando estiver em compromisso interior a barlavento).

A segunda alteração da regra 18 foi uma simplificação da regra 18.3 (Cambando na Zona). Esta regra foi criada com o advento dos percursos menores introduzidos na década de 1990. Com um contravento menor, os barcos chegam na marca do primeiro contravento muito embolados. Para desestimular aproximações de vela direita, a regra 18.3 criou uma grande dificuldade para estes barcos cambarem na zona. O intuito da regra era somente este, mas ela era também aplicada em montagem de boias invertidas (deixando a marca por boreste). Agora a regra só se aplica a montagem por bombordo. Além disto, ela só se aplica entre um barco amurado a bombordo e outro amurado a boreste que esteja alcançando a marca. Isto elimina situações complexas quando mais de um barco cambava dentro da zona.

Ainda na parte C (Marcas e Obstáculos), tivemos uma simplificação na regra 19 (Espaço para Passar por Obstáculos). Quando mais de dois barcos se aproximavam de uma marca, poderia ser considerado que um barco era um obstáculo para os outros dois. A figura 3 mostra o problema. O barco I tem direito a espaço na marca sobre os barcos M e O. Mas a antiga regra 19.2(b) exigia que ele desse espaço para M passar entre ele e o barco O, que era considerado um obstáculo.

Figura 3.

Agora a nova regra 19.1 diz que ela não se aplica entre barcos em compromisso quando a 18 se aplica, acabando com esta confusão.

A regra 20 (Espaço para Cambar Junto a Obstáculos) foi alterada com o objetivo de deixar claro que um barco que brada por espaço para cambar sem poder está sim infringindo a regra 20.1.  A regra 20.2 (b) reforça que o barco bradado deve sempre responder, mesmo que o brado não tenha sido válido. Isto aumenta a segurança, uma vez que um barco pode estar vendo o obstáculo e outro não.

A regra 21 (Isenção), que antes morava na seção C (Marcas e Obstáculos), mudou-se para a seção D. Isto significa que esta regra não se aplica só a marcas e obstáculos, mas pode se aplicar a um barco que não concedeu espaço pela regra 15 (Adquirindo Direito de Passagem) ou 16 (Alterando o Rumo) no meio da perna. É bem verdade que esta isenção já poderia ser concedida antes pela regra 64.1, mas agora, a Comissão de Protesto não precisa mais estabelecer que um barco foi compelido a infringir uma regra, uma exigência da regra 64.1, quando algumas das situações listadas na regra 21 são aplicáveis.

Como eu disse inicialmente, até agora nenhuma mudança efetiva no jogo que praticamos. Mas a regra 22.3 traz finalmente uma mudança significativa. Antes um barco andando para trás aquartelando a vela perdia o direito de passagem. Esta regra foi ampliada para incluir barcos com seguimento lateral, ganhando barlavento aquartelando as velas. Esta técnica evoluiu bastante em barcos monotipos como Laser e Optimist e estava muito complicado para o barco de barlavento se manter afastado nestes casos.

Portanto, era isto que você precisava saber para iniciar 2017. Mas atenção! Os apêndices B (Windsurfing), C (Match Racing), D (Team Racing ), E (Rádio Controlado) e F (Kiteboard) foram totalmente reescritos e precisam ser estudados pelos oficiais e velejadores destas modalidades.

Para ver o livro de regras completo, clique aqui.

TEXTO EXTRAÍDO DO SITE WWW.REGRAS.COM.BR

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