Entrevista exclusiva com o campeão mundial Bruno Prada

 

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Durante o feriado de Tiradentes, o Notícias Náuticas foi até Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, conversar com o campeão mundial de Star Bruno Prada. Em um bate-papo de meia hora o medalhista olímpico e melhor velejador do mundo contou como foi conquistar mais este título mundial (o quarto da carreira), como é velejar com Robert Scheidt e o que acha do futuro da vela mundial.

Confira abaixo como foi a conversa:

Notícias Náuticas: Como foi a disputa deste Campeonato Mundial¿

Bruno Prada: O Mundial de Star foi super disputado, com 72 barcos. Mas, como Miami já tem a Bacardi Cup e a Star Winter Series, os brasileiros costumam ir muito para lá. Acho que lá foi o lugar que eu mais velejei fora do Brasil, então conheço muito bem a raia. O Augie também é de lá, mora a dois quarteirões do clube.

Um mês antes tínhamos corrido a Bacardi Cupl, com vento forte, que não é a especialidade do Augie. Ele tem 61 anos de idade, então não dá para brigar com velejadores como o Robert Stanjek, o Diego Negri, que tem em torno de 40 anos. Mas, ainda assim fomos bem, terminamos em terceiro, com um barco novo, que não tivemos tempo de regular.

Quando o evento acabou, pensei que se tivéssemos uns dias de vento fraco no Mundial daria para brigar com estes caras mais novos. E na semana do Mundial deu tudo muito certo. Demos uma certa sorte. Conseguimos fazer bons resultados. Em uma flotilha de 70 barcos é fácil tirar um 15º lugar, por exemplo, e nem é um resultado ruim. Mas começamos com um terceiro e um quarto lugares. De noite, olhando a previsão, vimos que o vento ia diminuir um pouco e no dia seguinte conseguimos ganhar a regata. A partir daí a previsão dizia que o vento só ia diminuir.

No Star você precisa ter um pouquinho de sorte. Precisa estar naquela semana perfeita. Como o Torben. O cara correu 30 mundiais e só ganhou um. Ele é bom. Desde o primeiro mundial que correu sempre foi um dos melhores do mundo. Mas ele teve uma chance. Uma única chance que acabou ganhando.

O campeonato foi muito disputado até o último contravento da última regata. A nossa estratégia era tentar largar melhor do que o Negri e o Labentenghi, que chegaram em primeiro no último dia. Nós tínhamos um descarte melhor e queríamos levar eles para o lado ruim da raia. Estávamos um em 60º e um em 65º. Foi quando o vento deu uma diminuída e quando voltou, voltou do lado que estávamos na raia. Conseguimos recuperar um pouco e fomos de 60º para 25º, o que ainda era péssimo. Depois fomos para 7º e no último contravento chegamos a liderar a regata, com o Negri em segundo e com esse resultado ele ganhava o campeonato. Para baixo de quinto, tínhamos que colocar um barco entre a gente e ele vencia no desempate. No final da regata o vento voltou novamente para onde estávamos e conseguimos vencer.

O Augie está muito feliz! Não dizendo que ele não vá ter outras chances, mas esta ele soube aproveitar. O primeiro mundial dele foi em 1983, ou seja, 33 anos tentando o título. O melhor resultado dele foram dois quartos lugares. Ele soube aproveitar a chance dele. O Negri, por exemplo, já tem dois segundos e um terceiro lugares e ainda não conseguiu aproveitar a chance dele.

NN: Como é velejar com o Augie?

Bruno: Velejo com ele há sete anos. Em 2009 ele me convidou para correr a Bacardi Cup, evento que o Robert nunca quis participar. Cheguei a correr a Miami OCR e toda a Star Winter Series. Então já rola um entrosamento. Fora que tenho um super relacionamento com ele fora d’água. Ele é um cara muito gente boa. Até falo isso para ele, que ele é legal demais, que tem que ser menos gente boa com a galera. Às vezes ele está lá arrumando o barco para um campeonato que começa no dia seguinte, fala que está sem o pau da buja, por exemplo. Ele para o que está fazendo, vai na caixa, empresta… Ele é realmente alguém muito do bem!

NN: Como foi o treinamento para o Mundial?

Bruno: Nós corremos a Bacardi, que é de segunda a sábado e eu cheguei na quinta. Aproveitamos para correr no final de semana a Walker Cup, que foi a final da Winter Series. No Mundial eu cheguei cinco dias antes e levei comigo o Luca Modena, que era meu técnico e do Robert. O barco é novinho e foi entregue um dia antes da Winter Series. Não tivemos tempo de acertar o barco, quer dizer, tivemos que acertar entre uma regata e outra. Conseguimos deixa-lo muito rápido. Em um mundial, terminar todas as regatas entre os cinco melhores, por melhor que você seja, é por que você está rápido. Quando você começa a acertar tudo, não é que você está realmente acertando tudo. É porque está tomando as decisões certas e porque está rápido. Um dos grandes méritos nossos foi deixar o barco rápido.

Além disso fizemos um planejamento muito legal antes, de estudar as correntes. O Luca, antes de cada dia tinha a obrigação de fazer umas cinco ou seis marcações da maré. Não basta seguir a tábua de maré… é preciso saber onde vai mudar, onde começa a encher ou vazar. O Luca conseguiu fazer um trabalho excelente e tínhamos muita confiança nele. Conseguimos mapear a maré e o vento. Já saíamos para velejar confiante no que íamos fazer. Tínhamos um pré-plano, claro que tinha que ajustar na raia, mas este planejamento foi muito bem feito. O conhecimento que temos da raia também ajudou muito.

Temos uma química muito boa dentro d’água também. Velejar em dupla é como um casamento. Você acaba ficando muito amigo do cara e na hora de tomar decisões tem aquele stress normal. Com o Augie rola uma convergência das ideias. Até na hora de regular o barco. Um ponto legal com ele é que ele tem muita confiança em mim. No popa, que eu vou de pé, ele falou: você faz a tática e eu só me preocupo em tocar o barco. Isso me dá muita confiança também.

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NN: É mais fácil velejar com ele ou com o Robert?

Bruno: O ponto forte do Robert é a Intensidade. A primeira regata do campeonato no primeiro cotravento e o último contravento, da última regata, é a mesma intensidade, muito intensa. Está sempre no 100%. O Augie, claro, tem mais de 60 anos e tem os momentos de cansaço, de desconcentração. Gosto de velejar na proa e os dois são grandes velejadores. Então, com certeza, ganhar campeonato com Augie foi uma coisa muito maior do que com o Robert. Quando estou com o Robert, até por conta de tudo o que a gente já fez, é quase que uma obrigação ganhar e com o Augie foi uma grande surpresa. Esperava ir bem no campeonato, mas jamais esperava ganhar o mundial. Acho que nem ele esperava ganhar.

NN: O Augie foi o velejador mais velho a ganhar um mundial de Star…

Bruno: O mais velho da história. Nunca ninguém acima de 60 anos ganhou um Mundial de Star

NN: Na época que você velejava com o Robert, vocês estavam muito preparados, treinando muito. Faltou uma medalha de ouro olímpica para completar a coleção?

Bruno: Faltou. Era do Rio de Janeiro, né… é complicado você ser campeão mundial, primeiro do ranking e não disputar uma olimpíada por problemas políticos. Entramos nas duas medal races das duas olimpíadas que disputamos com chance de medalha de ouro, mas não tivemos um dia bom. Tínhamos concorrentes fortes…

NN: Por que você acha que o Brasil vai tão bem nas regatas de Star. Subimos no pódio em todas as olimpíadas desde 1988, a não ser em Barcelona, 1992

Bruno: Na verdade, a Star é uma das classes mais fortes que tem no Brasil. Mas no final das contas, as medalhas não são fruto de um processo. São frutos de uns malucos… Pega o Torben e o Robert. Das 17 medalhas olímpicas, dez são deles. Nas décadas de 1980 e 1990 tínhamos uma flotilha bem forte. Tinha o Alan Adler, o Gastã Brun, o Dino Pascolato, o Eduardo Souza Ramos… eram vários velejadores de ponta que elevavam o nível da classe. Acho que a entrada do Robert foi a entrada do planejamento, do preparo, da intensidade. É um pouco de tradição. Quando começa a ganhar medalha, vai chamando os velejadores de ponta para vir treinar. As pessoas querem velejar ao lado de medalhistas. E acho que é uma classe que o Robert e o Torben se adaptaram muito bem. O Star é a prova, junto com o salto triplo, que mais trouxe medalhas olímpicas para o Brasil. É uma pena não fazer parte do programa olímpico do Rio. Mas agora não adianta chorar muito.

NN: E qual o próximo evento que você vai participar?

Bruno: Vou para a Alemanha correr o Grand Slam da Star Sailors League (SSL). Vou com o Augie de novo. É um campeonato muito legal, com uma transmissão incrível. A vela sofre de alguns problemas crônicos e um destes problemas é a promoção dos seus heróis, dos seus ídolos. A vela simplesmente não está nem aí para seus ídolos. A World Sailing (ex-ISAF) tem a capacidade de fazer de tudo para não promover o esporte. A vela hoje sofre um problema grave.. quando a vela paraolímpica saiu da olimpíada foi meio que o gato subiu no telhado. E a vela é a próxima, porque, a olimpíada é um negócio. É como televisão, se não dá audiência, sai do ar. E a vela está entre os três piores esportes de audiência. Por que? Porque nada é feito. Fora as finais olímpicas, não tem transmissão de Copa do Mundo, Mundial…A SSL está fazendo isso. As regatas são legais. Eles promovem o esporte.

Então, qual o segredo para transformar a vela? Promover seus ídolos, seus heróis. Depois, parar de mudar o esporte. Se você for ver os últimos dez anos, os caras mutilaram o esporte. Diminuíram as regatas, inventaram as medal races. Em 2013 corri seis campeonatos com seis sistemas de pontuação diferentes. A SLL tem um formato fácil. Tem os dez primeiros que passam para a final, elimina três, depois elimina mais três e na final, com quatro barcos, o cara que ganhar é o campeão. O público é leigo. Tem que ser fácil. Além disso eles têm gráfico, narrador… dá prazer de assistir.

A vela está no caminho errado, por que eles querem mudar o esporte. Já fui em vários campeonatos, tipo Copa do Mundo, e conversando com as pessoas, com os organizadores, todas reclamavam que estavam sem patrocínio. Mas patrocínio é um negócio. O que você vai dar em troca? O que você está me vendendo? Qual o seu produto? A vela como produto é uma droga. O esporte é muito legal, mas o produto é muito ruim. O problema é que querem vender um produto que não é bom. A SLL aos pouquinhos está revolucionando. Tem prêmio em dinheiro, traz os velejadores bons. São várias coisas que eles estão fazendo direitinho que eu acredito que o Star vá acabar voltando para as Olimpíadas. Ano passado a SSL fez um evento incrível no Museu Olímpico em Lousanne, na Suíça.

Outra coisa que a World Sailing precisa entender é que a Olimpíada não é um balcão de negócio de fabricantes de barco. É um momento que temos para mostrar o esporte da vela para o mundo. E o que é a vela? É regata de flotilha, match race, prancha, skiff, catamarã, barco de quilha. Não adianta colocar Finn e Laser na mesma competição. Ou você escolhe o skiff ou o 470, os dois são muito parecidos.

O formato da SSL é muito legal e se, conseguirem perceber isso, vão entender que este é o formato do futuro.

2 comentários sobre “Entrevista exclusiva com o campeão mundial Bruno Prada

  1. Mariana Gliesch

    Ótima entrevista, muito legal, parabéns ao Bruno Prada! Tenho acompanhado a SSL e realmente a World Sailing tem muito a aprender com eles sobre divulgação do esporte e como tornar ele mais atraente. Ah atenção que Lausanne fica na Suíça e não na França, acho que a confusão ocorre porque ela fica na parte francesa da Suíça…

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